17 junho 2015

Deus e o diabo na Câmara de Cunha





Por Madrasta do Texto Ruim

Foi tudo muito rápido. Tão veloz quanto leite levantando fervura, o Poder subiu à cabeça de Eduardo Cunha. E ele resolveu promover uma Reforma da Bíblia, já que ele controla tão bem esse Congresso.

Deus entrou em pânico:

- Ah, não! Tudo bem que séculos de evolução do pensamento humano já tornaram boa parte da Bíblia obsoleta, mas daí a deixar uma atualização da bagaça a cargo de Eduardo Cunha é muita esculhambação! Naonde que eu tava com a cabeça quando deixei o homem ter livre arbítrio, Deus do céu?

- Oh, Altíssimo, devo avisardes que naonde não existe de acordo com a norma culta da língua portuguesa, e Vós invocardes a vós mesmos e...

- Ai, Gabriel, não me venha com correções gramaticais numa hora dessas! Vamos descer pro Brasil! Temos que acompanhar a votação de perto!

E todos foram à Câmara dos Deputados, assistir à votação da galeria. Deu um trampo danado pra entrar, pois a Polícia Legislativa achou que aquele bando liderado por um barbudo fosse do MST. Mas o mal entendido desfez-se rápido.

- Ah, não! Você por aqui, Belzebu? Eu sabia que você estava por trás disso!

- Coé, ô Dazaltura! Eu vim aqui acompanhar de perto! Vai ser bem divertido!

- Mas o que é isso pendurado no seu pescoço? Ô Belzebu, naonde que você conseguiu esse crachá de funcionário da Câmara?

- Oh, Altíssimo, naonde não é...

- Tá bom Gabriel, eu já entendi. É errado!

E começou a votação.

Belzebu fez surgir em seu colo diabólico um grande pote de pipocas com bastante pimenta. Ofereceu a Deus, que recusou.

Primeiro ponto em votação: retirar da Bíblia a autorização para escravizar outros povos. A bancada ruralista foi contra. E o texto original foi mantido. Belzebu gargalhou.

- Caraca, nem eu faria um troço desses!

Segundo ponto em votação: apedrejar mulheres. Bolsonaro subiu no parlatório e defendeu a manutenção do texto. Alessandro Molon pediu um aparte, indignadíssimo. Eduardo Cunha negou, com base no regimento interno da Câmara. Maria do Rosário interveio. Eduardo Cunha também negou-lhe a palavra, também com base no regimento interno da Câmara. A votação foi por bloco de liderança. Foi mantido o texto original da Bíblia. 

Deus já estava rachado de vergonha.

- E eu achava que Eva que tinha desgraçado a coisa toda... meu Deus, quanto desgosto, quanto desgosto...

- Oh, altíssimo, vós invocardes a vós mesmos e

- Eu sei Gabriel, eu sei, obrigado por lembrar!

As bancadas do PT e do PSOL resolveram obstruir a votação, que foi dada por encerrada. Daí veio o STF e cassou com uma liminar a constitucionalidade da votação toda (Deus conseguiu ler nos autos do STF: "Eu não tenho elementos para deferir ou indeferir tal liminar, posto que quem rege as leis brasileiras é a Constituição Federal,e não a Bíblia. Mas a teoria do domínio do fato me permite, e eu vou indeferir").

Com muito desgosto pela raça humana (Meu Deus, onde foi que eu errei? Quieto Gabriel! Tô falando comigo!IGO!), Deus já se preparava pra subir aos Céus novamente, quando Belzebu o interpelou:

- Aí, Dazaltura, chega junto... geral tá pegando pesado contigo, né? Bora tomar uns goró pra aliviar um pouco essa barra que é abençoar este país? Vamos lá no bar do Araújo, fica aqui pertinho, no Tocantins...

Deus aceitou o convite, e se juntou a Belzebu.

Moral da história: o Brasil não é um país pra principiantes. Nem Deus guenta o tranco com facilidade.


Postado no Luis Nassif Online em 17/06/2015


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