03 abril 2015

Semana Santa : o paradoxo da morte criadora de vida




Jacques Távora Alfonsin

Entre as muitas interpretações versadas sobre o julgamento e o assassinato de Jesus Cristo na cruz, alguns fatos continuam merecendo debate, não exclusiva e necessariamente relacionados com a religião.

Foi julgado e condenado por um representante de autoridade externa a dos judeus, não foi garantida ao condenado a defesa jurídica, os motivos para a condenação não derivaram exclusivamente de heresia, nem a compra da traição de Judas recebeu qualquer menção no decorrer do processo, se pode se chamar processo a investigação da prova e a motivação da pena aplicada ao condenado.

Chama bastante a atenção nesses fatos, como a história se repete ainda hoje, muitos séculos depois, demonstrando não se encontrar na lei e na sentença as garantias exclusivas de justiça, nem o Estado ser o único legitimado ao monopólio sancionatório do respeito devido às três.

Leis, doutrinas jurídicas, argumentos de autoridade inspirados em preconceitos culturais e ideológicos distantes e avessos à realidade sofrida de gente pobre, como pobre era Jesus Cristo, ainda se assemelham agora aos mesmos argumentos “justificativos” da pena a Ele imposta e até aos seus injustos efeitos.

Com muitos agravantes. Ao tempo de Jesus Cristo, as responsabilidades do poder econômico e do religioso pela opressão e pela repressão política impostas ao povo pobre, ainda podia, pelo menos, ser perfeitamente identificada e individualizada como se vê, por exemplo, na duríssima censura por Ele dirigida a quem exercia esses poderes.

O capítulo 23 do Evangelho de São Mateus dá uma ideia disso, quando Jesus denuncia mestres e fariseus, gente muito rica de então que explorava e oprime o povo. Discursando para uma multidão, aconselhava como era necessário estar prevenida contra isso:

“Não imitem as suas ações, pois eles não fazem o que ensinam. Amarram fardos pesados e os põem nas costas dos outros, mas eles mesmos não os ajudam, nem ao menos com um dedo a carregar esses fardos” (…) “Ai de vocês mestres da lei e fariseus hipócritas! Pois vocês exploram as viúvas e roubam os seus bens e, para disfarçarem, fazem longas orações.” (…) “Ai de vós mestres da lei e fariseus hipócritas! Pois vocês dão a Deus a décima parte até mesmo da hortelã, da erva-doce e do cominho, , mas não obedecem aos mandamentos mais importantes da Lei, que são os de serem justos com os outros, o de serem bondosos e o de serem honestos. Mas são justamente essas coisas que vocês devem fazer, sem deixar de lado as outras.
Guias cegos! Coam um mosquito, mas engolem um camelo! ”

Atualmente, os alvos dessas críticas tratam de garantir sua invisibilidade. Diante de acusações daquela gravidade, em tudo semelhantes e implicadas no que ainda acontece agora, contra muita gente pobre, sabem Jesus ter sido condenado e morto, não apenas porque seus acusadores o acusavam de blasfemo.

Mesmo assim, ainda há quem reduza toda essa injustiça a um só motivo. Pretende ver na morte de Jesus Cristo apenas um preço a ser pago (!) pelos pecados das pessoas. Uma espécie de passe mágico para a salvação da humanidade, assegurando sua chegada no céu. Esse sermão de Jesus é uma clara advertência contrária a um tipo de raciocínio desses. Demonstra estar a fé em vigilante e permanente conflito com a injustiça e não como totalmente alheia ao exercício do poder político. Um inferno opressor bem terreno exige dela enfrentamento, combate e vitória, como exigências próprias da verdade e da justiça, condições essenciais de amor e de paz.

Jon Sobrino, por sinal, em estudo sobre “A fé em Jesus Cristo” (Petrópolis:Vozes, 2001) divide os seres humanos de uma forma simples e clara, não menos suficiente para, quem sabe, ter-se uma idéia menos ingênua dos efeitos permanentemente renovados e reconceituados na história, criados pela significado da morte de Jesus Cristo. Em chave de leitura capaz de não escandalizar até quem não acredita em ressurreição diz Jon:

“Creio eu que nós seres humanos nos dividimos em dois grupos: aqueles que dão (e damos) a vida, é claro, e aqueles que não dão, certamente, a vida; e na minha opinião , conforme se esteja neste ou naquele grupo mencionado, se vêem as coisas de maneira diferente. Como se compreendem os direitos humanos, a democracia, a liberdade, instituições como o sistema bancário, o aparelho judiciário, as forças armadas… varia enormemente conforme se esteja neste ou naquele grupo. E isto, creio eu, vale também no essencial para a compreensão da religião, da Igreja, da fé, da oração, da esperança… Em suma, da vida e da morte.”

Sendo de Jesus Cristo, igualmente, a afirmação de que viera para dar a vida e vida em abundância, como recorda São João em seu evangelho, pode-se deduzir da opinião de Sobrino estarem no grupo dos que dão a vida também os da não vítimas. Esse dá prova de uma “ressurreição” diária, amorosa, cuidadosa e perseverante, a cada libertação de vítimas, com quem convive e é solidário.

O grupo dos que não dão a vida é justamente o grupo criador de vítimas. Portanto, o grupo que as coloca na cruz e as assassina, como assassinou Jesus Cristo. Um grupo de morte e não de vida nem de ressurreição, estejam essas envoltas nos mistérios que estiverem.

Identificar tais grupos, hoje, desafia um discernimento crítico necessário da realidade, quase sempre mascarada por quem tem interesse em falsear a verdade, para impedir de ser o que ainda não é, mas tem o direito de ser.

Por força de uma economia globalizada, por exemplo, dirigida também de fora, escondida numa irresponsabilidade anônima como era a do império romano do tempo de Jesus, contando com a cumplicidade de poderosos grupos econômicos nacionais, prossegue com dinheiro suficiente para comprar muitos Judas, manipular muitos Pilatos e crucificar milhões de pobres em todo o mundo, sem possibilidade de defesa, como também aconteceu com Ele, naquilo que Milton Santos já identificara como pobreza produzida de forma consciente e injusta. A capacidade de sacrificar muita gente, matar a terra e a natureza não contam para esse tipo de holocausto.

Nesta semana santa, então, quando a fé move multidões a se ajoelhar diante da cruz, talvez seja mais importante do que se solidarizar com a dor do crucificado, seguir o seu exemplo fazendo o que ele realmente quis: retirar da cruz quantas/os ainda estão nela presos, libertá-los de toda miséria, exclusão, ódio e injustiça, dessa forma celebrando com todas/os uma nova ressurreição de vida pela qual vale a pena, como valeu para Jesus Cristo, dar a Sua Vida.


Postado no RSurgente em 02/04/2015


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